Trechos dos livros

Nesta página o leitor pode apreciar o estilo literário do autor.


Mistério em Lago Roxo



- É meu dever declarar os últimos desejos dessa criatura que morreu e esclarecer a quem tem direito os seus bens. Pobre porco, morreu como tal, declarou que depois de morto, dois dias de seu sepultamento poderia ser lido a carta testamento. Era desejo do inconsequente que familiares e criados ouvissem o testamento, mesmo porque ele tinha certeza que eles ouviriam de um jeito ou de outro. A polícia e seus representantes aqui, amigos, coisa e tal, todos estão devidamente autorizados pelo defunto. Agora fiquem todos em silêncio para eu poder ler: - limpou a garganta, bebeu um gole de água e começou: “E aí seus mortos de fome!” foi o senhor Charlie quem escreveu isso. - esclareceu o advogado tornando-se vermelho. - “É a quarta vez que faço um testamento e nunca mudei a frase inicial. Vamos começar pelo começo. Na minha derradeira infância, as pessoas que estavam do meu lado eram meus pais, e na meninice até a adolescência o Goiaba, o Xerife e o Lagartixa, para o Goiaba e o Xerife não posso dar nada, porque morreram servindo a pátria, panacas. Só deixarei alguma coisa para o Lagartixa que ainda é meu melhor amigo, aposto que ele está aí ouvindo esse monte de bobagens. - um olhou para o outro e depois todos para Lander, dava para perceber que ele era o tal de Lagartixa. Ficou vermelho, tadinho. - Não fique tão contente seu Lagartixa, eu posso te dar um pneu velho como sempre faço, não é porque morri que vou mudar. Depois de me casar, com meus doze anos de idade, claro que clandestinamente, deixarei algo para o padre que celebrou o casamento, se ele não morreu, é claro, e para Lander que foi meu padrinho de casamento. Para ficar rico, a única pessoa que me ajudou foi o Napoleão, mas nada deixarei para ele, porque também está morto, e vou confessar de primeira mão, fui eu que o matei, sabe, Maquiável faria o mesmo. Não poderia esquecer da minha eternamente linda esposa Lúcia, que chamo carinhosamente de “rosquinha insaciável”. - a pobre mulher quase desmaiou. - E é claro que não me esqueci da minha filha, não sou um pai desnaturado que te criou até agora, saiba que minha vida foi um turbilhão de estupidez, e agora vamos a lista de presentes.”

O advogado, só para irritar parou para beber dois goles de água.
Primeiro a “gentinha” como diz minha esposa, que são os criados. - os criados fuzilaram a senhora Lúcia com os olhos, ela se abanava com uma revista de moda. - Para a empregada Elva uma surra de rabo de tatu. Pena eu não estar aí para ver isso. - a empregada sai correndo e chorando. - E depois da bela surra o carro de passeio da família que ela tanto cobiça. O mordomo, ele terá que cantar a ópera de Verdi, aquela amaldiçoada para ganhar a casa, sei que não conseguirá, por isso ficará sem coisa alguma. - o mordomo sai chorando também. - Não sou tão ruim, pode ficar com os prédios de escritórios de Liverpool. O jardineiro pode ficar com a minha mulher, por quem nutre desejos sexuais animalescos. - o jardineiro olha sem jeito para dona Lúcia que já estava roxa. - O ambiente aí deve estar pegando fogo. Brincadeira, o jardineiro pode ficar com a coleção de ouro dos livros em couro. O porteiro não ganha nada porque eu mal o conheço. O restante que se contente com duzentas libras e que sosseguem. Agora os mais íntimos, para a minha sogra uma facada no pescoço, ao meu amigo Lagartixa, o Lander, que brincou, estudou e viveu parte da minha vida eu quero que tome conta da minha querida esposa, sei que ela o ama e você também gosta dela e que eu sou o único empecilho desta linda história de amor, se quiserem podem até se casar. - Lander e a senhora Lúcia não suportam se olhar, o constrangimento na sala era palpável, nunca me diverti tanto. - Desejo do fundo da terra que sejam felizes, eu não disse Lander que um dia você a teria, vão poder fazer sexo até dar câimbras... bem, para os meus cães só sobraram meus ossos, espero que não tenham me cremado! Tenho pavor de fogo. Se quiserem podem dar um ossinho meu para o gato. Minha esposa ficará com a mansão, o terreno em Lizard, o chalé em Westwood que ela desconhece, foi quando eu quis arranjar uma amante, mas nunca consegui, estava na moda. A casa antiga sobre o cemitério celta e a fazenda dos Bronsk se conseguir tirar deles e conseguir convencer de que ela é sua, se conseguir isso pode até tentar o parlamento inglês, acho aquele prédio lindo! E agora para a minha amada amante, um carro esportivo e todos os meus troféus de campeonato de amarelinha, ah, ah, ah, queria ver a cara de vocês agora, claro que não tenho uma amante, sou milionário, posso ter três, mas tinha cinco e elas nunca quiseram ir para o chalé, só queriam ficar no escritório, dou por último cinco mil libras para o clube dos Rensk, e para Atanair Limamã Canelli, por ter me salvo a vida num ataque de gafanhotos no Sul da Califórnia, apesar de eu nunca ter estado lá, e dou mais cem mil libras para a máfia que esta numa crise brava, adoro filmes de mafiosos, e a decadência deles é coisa muito triste. E é só, na próxima reencarnação tem mais.”



Conversa de Velhos




João: Sabia que eu tenho um disco da Betty Smith?
Fred: Claro que não.
João: Pois eu tenho.
Fred: Bem feito, e quem é essa aí?
João: Uma cantora, oras! Nunca ouviu falar da falecida Betty Smith?
Fred: Não, mas já que é para falar sobre discos raros, eu tenho um do Batatinha.
João: Quem é esse?
Fred: O Batatinha?
João: É, quem é esse desnaturado?
Fred: É um homenzinho gordo e baixo que se parece muito com uma batatinha, daí o apelido. E ele ainda por cima come batatinhas enquanto canta a Traviatta.
João: Nunca ouvi falar, curioso isso o que esta me dizendo.
Fred: Ele canta com duas batatinhas enfiadas na boca, uma de cada lado, e ainda quentes, assim ele canta rápido e com uma tonalidade mais aguda. Escute só uma música dele que eu decorei, tem alguma coisa para eu colocar na boca?
João: Não.
Fred: Bem, é mais ou menos assim: hum... estou chegando do canteiro de batatas, onde fui buscar batatas para fazer batatinhas com vinagrete.
João: Pare! Pare! Quer me fazer lembrar dos campos de concentração de onde nunca estive? Que raios de música mais sem graça é essa? Tem certeza de que você tem um disco desses? Ninguém fez o favor de quebrá-lo ou jogá-lo fora? Quem te deu essa porcaria?
Fred: A minha sogra.
João: Está tudo explicado, não precisa dizer mais nada. Mas porque a sogra te deu um disco?
Fred: Não me lembro mais, acho que aniversário de casamento, mas eu me dava muito bem com os meus sogros.
João: Eu também, nunca tive o que reclamar deles, agora eles de mim...

*

Cada um dos velhinhos segurava um copo na mão, trataram de tomar seus remédios, eram muitos e de todas as cores, formas e tamanhos, comprimidos com os nomes mais compridos e esquisitos que poderiam imaginar. Tiravam suas caixinhas dos bolsos e juntavam os comprimidos precariamente sobre seus joelhos bambos, enchiam os copos que trouxeram com a água que tinham numa pequena garrafa térmica e tomavam fazendo logo depois uma careta significativa.
João: Nossa! Vi um comprimido roxo, e ainda dos grandes! Para que serve?
Fred: É uma pastilha de vitaminas que eu tomo, e não é roxo, é cor de vinho. Quer uma?
João: Não, muito obrigado, estou feliz com os meus.
Fred: Esse remédio é do bom. Me faz variar, mas depois eu me sinto ótimo!
João: Nem brinque com essas coisas!
Fred: Desculpe-me, esqueci que você já teve um problema desses.
João: Olhe só, eu consigo tirar esta tampinha menor sem usar a dentadura, viu?
Fred: Ãh? Que nojo. Está começando a esquentar, não acha esse tempo sufocante?
João: Eu prefiro o frio.
Fred: Eu já aproveito os dois, tanto o frio quanto o calor, como diz a minha neta, os dois são um barato, se aproveita dos dois suas coisas boas, no frio podemos tomar um chocolate quente e assistir filmes e no calor podemos tomar sorvete e ir na praia.
João: Mesmo assim eu ainda prefiro o frio, é bem melhor, quando chega o inverno fico com reumatismo, me dá câimbras terríveis, bato a dentadura...
Fred: Quem inventou...
João: A lâmpada?
Fred: Não.
João: O avião?
Fred: Não é nada disso, eu ia falar algo de importante e você me fez esquecer.
João: Ah! Que bom!
Fred: Queria dormir um pouco, sinto muito sono.
João: É o efeito do remédio ou não dormiu bem a noite?
Fred: Não, é que tinha um festival de marteladas lá do outro lado da minha rua.
João: Uma construção? De noite?
Fred: Não, durante o dia, eu durmo durante o dia também porque durmo pouco a noite, e trabalharam o dia todo lá.
João: Você sabe o que vão construir lá?
Fred: Me parece que é uma penitenciária.
João: Por que? É muito grande?
Fred: Não é muito grande não, deve ter o tamanho de uns dezoito supermercados.



O Fado dos Anjos



Mais uma corrente de vento frio surgia tirando novo gemido da moça.
O padre sentiu que não tinha tempo para ficar pensando no que fazer, e achou que a melhor solução era agir imediatamente com o que ele tinha nas mãos, por isso largou as sandálias e se agachando tentou comunicar-se com ela.
- Você esta bem? - e pensou: “Você esta bem? Que pergunta cretina! Não vê que a coitada sofre como uma garça nas mãos de uma criança má.” - Como é o seu nome? - indagou ainda, ela nada falava, tinha os olhos entreabertos e balbuciava coisas incoerentes, palavras do tipo morte e desejo. Isso assustou muito ao padre que imediatamente resolveu tirar a sua grossa batina e vesti-la, sua roupa estava tão retalhada que poderia imaginá-la claramente nua, mas o padre foi muito prudente quanto a isso, fechou os olhos para vesti-la, e por isso acabou vestindo-a ao contrário. Deixou assim mesmo, o importante era que agora estava coberta. Mas o padre mesmo assim não deixou de reparar que apesar de ter toda a roupa rasgada ela não tinha uma ferida ou arranhão sequer.
Apenas trajado com uma ceroula e uma camiseta rota, o padre ficou fitando-a com o crucifixo pendurado no pescoço, ela virou-se sobre a grama, e a parte de trás, que ele não havia abotoado, abriu-se revelando então uma alva e cativante bunda. Pobre padre Vitório que agarrou-se ao crucifixo e fechou os olhos, a imagem ficara gravada em sua mente. “Que coisa mais encantadora, meu Deus!”. Repeliu esse pensamento, apertou ainda mais o crucifixo fazendo-o quebrar.
- Oh! - abriu a mão avermelhada dividindo em dois a santa cruz, um tanto que exasperado, correu até ela a cobriu e abotoou a batina, ocultando assim o traseiro tentador. Guardou o pedaço do crucifixo em seu bolso e a pegou nos braços. Ela gemeu muito enquanto ele fazia isso, pois era desajeitado e a passos incertos começou a andar, quase a derrubou quando a ergueu, sua pernas eram fracas e bambas. Trazia ainda a outra metade do crucifixo pendurado no pescoço. O vento gelado aumentara e reparou enquanto a carregava, que os seus lábios estava roxos de frio, nisso escorregou e caiu. Aproveitou para colocar o chapéu que usava sobre o rosto dela para protegê-la do vento inesperado. Levantou-a e prosseguiu caminho até a pequena vila. A jovem pesava muito para ele que ansiava por ver um cavalo ou qualquer outra coisa como uma carroça. Rezava ardentemente para que tudo desse certo e que Deus lhe perdoasse pelos pensamentos impuros.



Reflexões de Ulisses



- Querido, não se esqueça de dar bom dia para a Maria.
Oque deu nela agora? E que Maria é essa? Ah, a empregada nova. Precisa mudar assim de expressão por causa de uma pessoa desconhecida? Fica toda radiante com a tal da Maria que ela mal conhece. Agora estou me lembrando desta mulher, foi ela que disse: “Vou ser honesta com vocês, tenho um filho com problemas.” Eu ainda brinquei dizendo que todos temos problemas, e que se o filho dela era deficiente mental, isso era um problema a mais. Foi detestável, e pior de tudo que não era esse o problema, antes fosse, o problema do filho dela é com as drogas, o que deu na minha cabeça para concordar com os ideais assistencialistas da minha mulher? O primeiro probleminha que aparecer eu vou responsabilizá-la, ela que quis contratar a tal da Maria. Mas é um problema mesmo, será que eu deixei bem claro para os meus filhos o poço sem fundo que é a droga? Será que eles já viram, ou usaram? Na verdade todos já chegaram perto deste perigo, depende da cabeça deles, das companhias que eles andam. Que mundo! Ou melhor, que sociedade é essa? Meu Deus! Está tudo errado! Quantas vezes vou ter que dizer que não quero mamão no café da manhã? E ela diz pra comer com as semente para regular os intestinos, quando a gente se casa elas tomam conta até dos nossos intestinos. É o fim da picada! Cadê o açúcar? Ah, não existe mais açúcar nesta casa, temos que usar o mel, como vou mexer essa meleca no meu café?
Sabe, vou tomar café de verdade depois, só vou enfiar essa fatia de bolo de chocolate na boca e ir embora! Droga, bolo de laranja, é por isso que ninguém comeu ainda! Detesto, mas fazer o que? Sera que elas não entendem direito o que dizemos ou fazem de propósito para testar a nossa paciência. Como minha esposa conversa com essa tal de Maria, não deveria dar tanta conversa pra ela, vai que fala alguma coisa que não interessa, já basta que ficará sabendo de todos os horários da casa, quando as crianças chegam ou saem da escola, preciso conversar com ela depois. Daqui a pouco o filho paranoico dela vai saber tudo da nossas vidas e vai invadir o nosso apartamento ou assaltar a nossa filha para roubar coisas para comprar a droga dele. Vou telefonar para ela assim que chegar ao escritório. Mais uma coisa para me lembrar e não me preocupar mais, parece paranoia, mas será que não é?



TV Pirada



- Gente! Vocês não vão acreditar que bocó de mola é esse homem aqui, antes tivesse me dado uma cantada. Disse o sonso que coloca dois tijolos com massa num segundo segurando não sei o que numa mão e chupando não sei lá oque.
- Jenipapo. - informou ele.
- Parece que bebe.
- Bebendo também, mas aí fica muito mais difícil, nem sei se hoje sou capaz de fazer isso.
Ela o encara durante um tempo.
- Dá para chamar os comerciais?

TV Pirada.

- Na sua casa não tem baratas? Nem formigas, ratos ou pulgas?
- Que diabos de lugar é esse onde você mora? Deixe sua casa mais humanizada com alguns bichinhos para animá-la um pouco. Da Parasita.

- Assista a polêmica peça teatral irlandesa: “As aventuras de um eunuco.” com mais de quinhentas insistentes apresentações, o sucesso foi tanto que estourou o número de passagens aéreas na Irlanda, para fora.

- Sabe com quantos paus se faz uma canoa?
- Se não sabe compre as nossas madeiras e faça uma, aí você saberá. Grande variedade de madeiras de lei cortadas sem permissão da guarda florestal. Madeireira Pau Podre.

- Quer ganhar muito dinheiro desonestamente?
- Contrate-nos então, somos assaltantes de bancos profissionais anônimos e aposentados. Agência de Assaltantes Cofre Vazio, você financia o assalto e a terça parte do lucro obtido fica conosco como parte do pagamento, é claro. Um negócio que pode render milhões.

- Voltamos, e aí João da Silva. - a apresentadora encarou-o severamente. - O que tem a falar?
Ele faz uma cara de emburrado, depois sorri alegremente.
- Mamãe, olha eu aqui na TV! Eu sou famoso agora, todos me conhecem, um beijo mamãe! E para a gracinha da Marilda também, que é a minha vizinha, ela é boa. Digo, simpática.
- Bem, - a entrevistadora pigarreia nervosamente. - seu trabalho deve ser um tanto que difícil e perigoso, me fale sobre ele..
- Eu gosto do meu trabalho, acho que ele é muito bom, e não é difícil e muito menos perigoso.
- Mas fale que é, besta! - ralhou ela irritada com o rapaz.
- Ah. É besta, e muito difícil também.
- Já deu ou recebeu tijolada de alguém?
- Não. - rindo. - Nunca me aconteceu isso, mas uma vez quando eu fazia um daqueles muros altos para aqueles grã finos, me caiu um grande bloco das minhas mãos.



O Sonâmbulo Suspeito 


Caroline começou a descer as escadas, estava usando um lindo vestido de noite, muito insinuante, que modelava com ousadia e deixava partes de seu corpo exuberante à mostra.
Lili estacou na frente das escadas, impedindo Caroline de passar, o olhar furioso fê-la parar. Lander ficou na expectativa, observando as duas que pareciam duas feras.
- Tire esse vestido! Ele não te pertence! - falou entre dentes, Lili estava furiosa. Pois a megera usava suas roupas mais finas.
- Claro que me pertence, era de minha irmã! - disse a outra desafiante.
- Isso é um absurdo! Tire-o já! - gritou a outra, todos se voltaram para a briga entre as duas mulheres.
- Aposto um contra todos, que esse vestido foi comprado por Gregory!
- Gregory nunca me deu nada de bom! Ele nunca teve dinheiro para comprar presentes para mim!
- Não me diga então que esse vestido insinuante foi comprado para você pelo seu papai?
- Foi sim.
- Então ele gosta de ver a filha vestida nestes tipos de traje?
- Ora! Sua vagabunda! - avançou para cima de Caroline com unhas e dentes, essa deu um grito, tropeçando ao tentar subir as escadas para fugir, sua peruca até caiu. - Vou te tirar o vestido na frente de todos esses homens! - e começou a puxar-lhe com força pelas alças do vestido, que aos poucos se rasgaram, Caroline tentava em vão cobrir-se, isso em meio a mordidas, unhadas e tapas violentos.
Lander tentou poupar-se daquela luta indecente e limitou-se a fechar os olhos, deste modo só pôde ouvir. Além dos gritos e rangeres de dentes, ouviu também algo pingando pelos degraus da escada, era o olho de vidro de Caroline que havia caído de seu rosto e pingava os degraus como se fosse uma bolinha de pingue-pongue. Lili tentava ainda puxar os cabelos que Caroline não possuía, sua mão fechava-se rente ao crânio depilado de sua rival.
- Vamos apartar essa briga, homens! - gritou Lander desesperado e todos subiram as escadas para separá-las.



Faça-me Pensar


O iluminismo foi um marco histórico porque colocou em foco a importância da razão numa época, séc. XVII, em que os ideais da religião imperavam com toda sorte de superstições, levando o homem cada vez mais a ignorância. Nos dias atuais, não são apenas a religião e as superstições que mantém o homem na ignorância, mas também o egoísmo e a ambição, fazendo querer cada vez mais sem dar importância aos outros e ao seu próprio caráter, o vício com toda sorte de comodidades que ele diz trazer, não em benefícios mas em prazeres, todos eles infrutíferos, diga-se de passagem, e o amor que como já foi dito desgastou seu significado, sendo a palavra usada para cativar, enganar, usar num sentido que pareça mais amplo do que realmente é.
Tentar explicar o que é a conscientização profunda é mais complexo do que parece, uma das razões é que ninguém pensa de forma semelhante, por isso foi que achei algumas formas de deixar essa linha de raciocínio mais fácil de ser compreendida:
Estar consciente de forma profunda não implica que possa ter razão em tudo, mas uma percepção melhor. Quem alcança esta consciência tem que ter humildade de reconhecer os seus defeitos e tenta a todo tempo melhorar. Só o fato do indivíduo achar que sabe de tudo, já denota seu estado inconsciente, o sujeito não percebe a barreira do orgulho que o cega para horizontes mais amplos, ao reconhecer com humildade ele descobrirá que só tem a ganhar, pois fica mais fácil aprender a lição quando se sabe dos pontos fracos, que já foram ditos como as causas da ignorância.
Transformar um assassino psicopata numa pessoa normal, um orgulhoso numa pessoa mais humilde, um tarado sexual numa pessoa mais equilibrada, uma pessoa avoada numa outra mais concentrada, tudo depende primeiramente da disposição da pessoa, analisar a intensidade do prazer que ela tem com seus vícios ou manias e fazer o próprio questionar se vale a pena tal atitude, até que ela perceba o seu estado inconsciente e que ele é prejudicial para viver em harmonia em sociedade. É um trabalho exaustivo, mas é possível, não com ameaças, mas enfraquecendo o lado prejudicial e valorizando o lado racional, produtivo da pessoa, onde há futuro para amizades, conhecimento, bem-estar, prazeres não mais intensos, mas puros, que satisfazem sem culpa.
Conscientização profunda é a disposição do ser de auto questionar-se, e procurar respostas para suas dúvidas, perceber suas dúvidas é um grande impulso para a sabedoria. Questionar-se e ter capacidade de se avaliar com a mesma facilidade que lhe convém quando avalia ao próximo. Procurar respostas em livros, amigos ou com você mesmo é um exercício dos mais valiosos, pois com certeza haverá uma grande mudança a cada questão posta e a procura de sua resposta.



Vida de Louco, o impossível acontece


Uma típica senhora inglesa os cutucava com uma bengala de castão dourado, usava roupas apropriadas para o deserto e estava com uma dúzia de camelos e outros homens que não falavam a língua deles mas que ela chamava de beduínos. Velho achou bonitinho.
- Quem são vocês? - indagou ela com afetação. José e Velho não resistiram e começaram a dar risada, mas como ninguém ria com eles ficaram imediatamente calados. - Se querem beber um pouco de água eu tenho comigo.
- Queremos voltar para casa, acabamos nos perdendo no deserto. - disse José infantilmente.
- Meu dente caiu. - disse Velho com a dentadura no chão de areia, limpou na barra da blusa encardida e colocou novamente dentro da boca.
A senhora inglesa os observava com curiosidade.
- Não são terroristas?
- Se nós fosse nós ia dizer?
- Não são rebeldes?
- Se nós fosse nós ia dizer?
- São malucos!
- Se nós fosse nós ia dizer? - José começou a achar que dava para usar essa frase para tudo, seria bem pratico.
- Querem água ou não?
- Se nós fosse nós ia dizer? Quero dizer, sim, pois falar demais me causou dor nas costas. - justificou José bebendo a água oferecida e passando o cantil para o Velho.
- Vou fazer o seguinte. - começou a senhora inglesa. - Vou dar uma carona para vocês, tenho camelos sobrando, poderão ir conosco até a próxima estação que os levará para a cidade mais próxima e lá vocês vão ter que se virar.
- Eu sei me virar! - disse Velho tentando colocar seus sapatos nos pés e não conseguindo.
- Sabem montar em camelos? - perguntou a inglesa.
- Se eu sei montar em camelos? - disse José. - Eu sei montar em praticamente tudo, sou um grande montador e desmontador. - disse todo orgulhoso, depois foi ajudar o Velho a colocar os sapatos.
- Logo percebi que não são daqui, como se perderam? - indagou cutucando-os com a bengala, pois não prestavam atenção nela.
- Ei, pare com isso! Como vamos saber como nos perdemos, se soubéssemos não teríamos nos perdido! - resmungou Velho pondo-se de pé.
- Meu nome é Agatha, meu marido é arqueólogo, estou ajudando meu marido a desenterrar ossos de animais.
- Você está brincando? - indagou José sério.
- Não estou não, sou eu mesma, Agatha Christie. - disse a distinta senhora riscando timidamente a bengala na areia do deserto.
- Você viu o que ela disse, Velho?
- Ouvi! - disse o outro assanhado. - Eles estão desenterrando animais mortos!
- Que legal! Podemos ir ver?
Acabrunhada, a doce senhora percebeu pelo riso lunático deles que seriam um problema para as escavações arqueológicas de seu destemido marido.
- Na verdade não se trata de uma brincadeira, é sério.
- Mas quem está brincando? - indagou Velho sério, depois riu, ficou sério e riu novamente, tentando ficar sério, mas não aguentou e começou a rir pra valer.
- Não ligue para ele dona Thabata Triste, o coitado sofre de gracinhas agudas, mas eu sou uma pessoa séria, e coleciono tudo quanto é bicho morto, quanto mais estragado melhor, guardo eles em vidros de maionese, vidros de pimenta, molho ou garrafas de uísque vazias, se tiver somente os ossos eu sou capaz de montá-los com a precisão de um anão reumático e capenga.
A senhora inglesa escutava tudo aquilo apavorada, começou a se arrepender de tê-los salvo do calor do deserto onde teriam a morte certa e ninguém ficaria sabendo de nada.
- Olhem, não sei se poderão ajudar, na verdade dispenso qualquer ajuda de vocês, não querem apenas os camelos e irem embora?
- Claro, se a nossa presença é tão hostil assim, nós ficamos muito emotivos, tanto é que meu amigo vai chorar. - disse José apontando para o Velho que tirava resíduos do nariz.
- Eu não quero chorar.
Dois camelos foram oferecidos aos dois desequilibrados. Mas assim que os animais, falo dos camelos, viram os dois malucos, começaram a correr em desabalada carreira, José e Velho não perderam tempo e correram atrás dos camelos com toda a velocidade que tinham. Agatha Christie ficou observando aquelas duas criaturas sumirem pelas dunas do deserto, correndo atrás dos camelos que se distanciavam cada vez mais, concluiu aliviada que ambos logo, logo morreriam no deserto, sem um raciocínio lógico e metódico.

Peças Simples para Pessoas Complicadas


No centro do palco apenas uma mulher semi nua, deitada de lado, a iluminação bem em cima de seu corpo. Narradora, começa a história:
Já era uma atriz, digamos de boa fama, tinha meus admiradores, não eram muitos além dos familiares, mas percebia-se que com o meu talento, logo seria uma pessoa famosa. Não me lembro exatamente qual peça, era algo bem amador, um texto qualquer de algum dramaturgo bêbado que havia se matado a poucos dias e resolvemos homenageá-lo interpretando uma de sua péssimas peças. Numa das cenas eu usava uma minúscula camisola esvoaçante, as luzes estavam quase todas apagadas, tinha que fugir de costas do meu agressor imaginário, estava tão concentrada no meu papel que era capaz de ignorar completamente a casa quase cheia, era uma plateia, que apesar da peça não ser muito boa, mantinha-se atenta e calada. Sem mais delongas, o fato é que cai do palco, sei que não é recomendável andar de costas num lugar escuro, mas no lugar que havia ensaiado era bem mais amplo que aquele palco. Não me lembro da queda, sei que o fosso do palco até a primeira fila deveria ter um metro e meio ou mais, e na escuridão parecia um poço sem fundo, foi um susto e devo ter desmaiado, mas foi por pouquíssimo tempo, pois quando dei por mim estava deitada no chão, não sentia dor nenhuma, silêncio absoluto, de repente era como se uma manada viesse em minha direção, (figurantes e atores se aproximam do fundo do palco e formam um semi círculo em volta da mulher semi nua) Ouvi alguém gritar:
  • Não mexam nela até chegarem os paramédicos!
Era a meu respeito que falavam, fiquei quieta também, reparara que não havia me mexido até então, mas por me achar extremamente confortável e fui levada por uma lascívia irresistível de ficar imóvel e ser observada, sentia a presença das pessoas se fechando num círculo a minha volta, minha camisola curta revelada toda minha perna e quase toda minha bunda, sentia uma brisa sobre minha pele desnuda, todos viam minha bunda e talvez até alguma coisa a mais, mas a sensação de total entrega dava prazer e não sentia nem um pouco de pudor de estar me mostrando assim desde que todos pensassem que fosse involuntário de minha parte. Meu maxilar estava relaxado e minha boca entreaberta deveria revelar um pouco da alvura dos meus dentes perfeitos, queria muito poder ver o contraste do vermelho de minha boca com o branco dos meus dentes. Havia feito branqueamento dos dentes a dois dias, e eles estavam esplêndidos. Sentia uma mexa dos meus cabelos pousada bem perto do meu nariz e o delicioso perfume que exalava dos meus fios sedosos, e todos ali poderiam ver a maciez do meu cabelo, segurei um suspiro para não me trair e continuei respirando pouco e pausadamente, sentindo uma brisa fria, mas deliciosa, porque ela me comunicava todas as partes do meu corpo que estavam sendo mostradas. Quantos homens estavam olhando para mim naquele momento, e nenhum deles se atrevia a baixar um pouco a barra da minha camisola, as mulheres, ah, as mulheres não se prestariam a me fazer essa gentileza, ainda bem. Só agora, perdida em minha narrativa narcisista, experimentando sensações das mais relaxadas começo a perceber o que cada pessoa em minha volta está dizendo:
- Não há nenhum médico aqui?
Sinto uma mão no meu pulso esquerdo que constata com tom quase profissional: - Está fraco! – graças que não era um médico, uma amador, dos mais medíocres, diga de passagem.
  • Como ela está pálida! – é a primeira voz de mulher que escutava, e percebo que ela evidentemente reparou no meu corpo, não parece preocupada com o meu bem estar, mas com a minha oportuna nudez gratuita, não posso deixar de notar que ela gosta do que vê. Pelo timbre de voz podemos notar, percebemos quando alguém está zangado ou sente prazer.
  • Aquilo ali! Não é sangue? – ao ouvir isso juro que quase arregalei meus olhos.
  • Não, é uma echarpe de seda.
Falam de mim como se não estivesse lá, mas sinto-me mais presente que todos eles, esqueci-me de dizer que estou deitada de lado, não me ajeitei depois da queda, não planejei ficar de lado mas estou tão bem assim, é tão displicente que poderia ficar horas naquela posição, a parte que mais se eleva do meu corpo é o meu quadril, e é por isso que sinto tanta atenção neles, mas meus seios também estão expostos, quero dizer, não mostro os mamilos e nem como se eles fossem dois bagos pendurados, o decote da camisola os exibe, imagino eu, de forma bastante satisfatória, e posso sentir, com a ajuda dessa brisa bem vinda, não sei de onde, que faz a ponta dos meus cabelos brincar com a minha pele acetinada. Pode parecer cínico de minha parte, mas não tenho culpa de ser linda e perfeita, quero dizer, é certo que Deus me fez assim, mas eu também me cuido, cuidar da minha aparência me faz sentir-se bem, saudável, posso dizer que é quase uma terapia, são tantos detalhes para se preocupar, cabelos, pele, unhas, olhos, dentes, que não sobra muito tempo para pensar nos problemas, e quando já somos bonitas por natureza, fica bem mais fácil e satisfatório o resultado, ser narcisista é algum crime? Querer que os outros me desejem é vulgar? Talvez seja luxúria, um dos sete pecados capitais. Mas não sinto culpa, é prazer, e me satisfaço assim, sendo observado por esses seres que de certa forma são menos privilegiados que eu, não só em beleza física, mas pela presente situação. Se não cuidasse do meu corpo, aí sim acho que seria um pecado, quantas chances desperdiçaria, e imagine não sentir o olhar, de admiração, inveja, apenas por você ser o que é: linda. A sociedade quer valorizar o intelecto e a capacitação das pessoas, mas me diga a verdade, consegue dizer o nome de cinco cientistas? Agora pense o nome de alguma atriz ou modelo, irão pipocar centenas de nomes famosos no seu cérebro. Sinto um cheiro acre, e é o que penso, um homem se debruça sobre mim, é um homem velho, acho que sinto isso pelo cheiro, posso quase sentir seu peso sobre mim tentando sentir minha respiração, sinto-o gemer, ofegar de maneira desajeitada e aquilo tudo não me agrada nem um pouco, para satisfazê-lo respiro um pouco mais forte em sua orelha cabeluda.
  • Ela está respirando!
Ninguém lhe deu trela, era óbvio, até para os outros que ele só fez isso para se aproveitar da situação e ninguém aprovou, ignorando seu comentário inútil.
Silêncio momentâneo, aproveitei para perceber toda a dimensão do meu corpo, e a começar pelas solas dos pés, lamentei que estivessem sujas, mas como atriz temos por hábito ensaiar e interpretar no teatro sempre descalças e com os pezinhos sujos de poeira, mas... e se outra coisa, como uma etiqueta, ou aqueles horríveis esparadrapos presos nas roupas de teatro com um nome qualquer estiver aparecendo, é um contraste tão desagradável, dá a impressão de relaxo, pobreza, sujeira, pensando bem, são detalhes tão pequenos, quem vai reparar numa etiqueta quando estou oferecendo minha bunda, meus peitos, meu rosto perfeito! Admirem-me! Homens e mulheres! Vejam! Saciem seus olhos, vocês vieram para isso, mulheres para me invejarem, homens para me desejarem, querer me possuir, quantos nesse meio já não estão excitados, tentando disfarçar pateticamente seus membros com posturas artificiais. Quase suspiro novamente. Não pretendo me exceder, está tudo tão perfeito, delicioso.
Desprotegida, qual seria a palavra mesmo? Vulnerável! Isso, como uma presa prestes a ser atacada, comida por um leão... a entrega, acho que a entrega é um instinto de perpetuação da espécie, por que a mulher sente essa necessidade de se entregar? Por mais vil e horroroso que seja o seu parceiro, a mulher se entrega, sente prazer em oferecer o corpo com a garantia de ser mãe, alguns homens e mulheres vulgarizam esse sentimento da entrega, esquecem que ele é irresistível, não adianta lutar contra seus instintos, Deus nos fez assim, vulneráveis, mas não submissas, isso é outra coisa que as pessoas vivem confundindo e dizendo que não conseguem entender as mulheres, qual a razão das pessoas de vulgarizar tudo, medo? Ignorância? Só sei que estou filosofando, tentando achar uma justificativa para minha letargia, deliciosa preguiça... o silêncio agora perdurou demais, sinto um desejo descomunal de abrir os olhos, bem devagar, mas perceberão. Imagino que todos foram embora, perceberam a minha safadeza e deixaram-me só, sem ninguém para me contemplar, foram embora para me punir do meu egocentrismo sem conta! Mas qual mulher, meu Deus! Não rezaria para cair do palco e se expor desta maneira tão natural? Ouço alguém pigarrear, não, eles ainda estão aí me cercando, só que agora pararam os cochichos, estão quietos como ratos, observando-me, quantos serão? O diretor, porque não o escuto gritando como um louco? Onde estará ele? Só agora percebo que deve ter sido o Alfredo, meu colega de palco quem pegou e mediu os batimentos do meu pulso e o outro que se debruçou sobre mim era o contra regra, um senhor de idade, muito legal mesmo, pobrezinho! Estão todos preocupados comigo! E eu aqui fazendo esse papelão! Se soubessem não me perdoariam nunca... sirenes! Escuto o carro de resgate chegando, então é sério mesmo! Acreditam que meu caso é grave! Descobrirão que tudo não passou de uma farsa! Mas sou uma atriz, devo continuar... como se interpreta uma desmaiada? Se medissem o batimento dos meus pulsos agora perceberiam que estão pulsando como se tivesse participado de uma maratona, se já não perceberam pelo rubor das minhas faces, que sinto queimarem. Vergonha, até lagrimas já estou sentindo em meus olhos! E que desejo de cobrir minha bunda! Vergonha! Meu pai! Ele disse que viria me ver na peça! Será que está aí? Vergonha! Vergonha! Vergonha! Queria morrer agora! Sair correndo! Não posso fazer nada! Só continuar fingindo! Fingindo... atuando!


Vida de Louco, o caos



Depois de muito papo furado, a velha estava pronta, em seu traje horroroso de voo. Parecia... uma... sei lá, um troço, o uniforme era de couro marrom, e nos ombros esquálidos ostentava cruzes suásticas.
- Bonito o seu uniforme. - Velho tinha um senso crítico incomum.
- Obrigada, agora sim podemos ir.
- Essa bandeiras não são antiquadas? - referindo-se as suásticas.
- É que eu gostei da cor delas. Combinam com minha lingerie.
- Essas cruzes significam coisas muito ruins. - disse José desconfiado.
- E vocês, o que são? Judeus, comunistas, capitalistas, socialistas, adventistas...
- Não somos nada, não senhora. - disse Velho humildemente.
- É, não precisamos dessas ideologias burras para viver, não sabe a senhora que só inventaram isso para a gente brigar um com o outro?
- É, dona. A ideologia política, seja ela qual for, é apenas um pretexto para arrebanhar gente estúpida como a senhora.
- Muito obrigada pelo elogio. Acha então que sou uma tonta?
- Claro que acho, assim como todos que agem como a senhora e se batem por ideologias que inventaram para enganá-las.
- É. - concordou Velho filosófico. - Eu prefiro acreditar numa árvore que cresce e mesmo assim sou chamado de louco.
- Vamos parar com esse preconceito, e vamos pegar o meu avião.
- Mas a senhora não vai vestir as calças? - diz José olhando para baixo.
- O que? - a velha Adevilda olha desesperada para baixo e depois olha para o José com os olhos arregalados, chega bem perto dele e lhe fala quase mordendo seu nariz. - Seu mentiroso!
- Brincadeira! A senhora se assustou.
- Vamos a luta! - disse Velho saindo para fora da casa medonha.
- Eu primeiro! - disse a senhora Adevilda correndo.
- Ei! Espere por nós! - berrou José indisposto a correr tanto.
Caminham por um lugar deserto, em fila, pareciam exaustos, menos a velha que estava com a cabeça erguida, foi ela quem quebrou o silêncio:
Piriri. - silêncio quebrado.
- Vocês já estiveram num deserto?
Os três se entreolharam. José e Velho respondem quase juntos.
- Já!
- Seus mentirosos! Duvido, aposto que não foi pior do que onde eu estava. Que deserto vocês atravessaram?
- O deserto da África. - disse José quase sem hálito.
- Fraco, o de Gobi é bem pior, seco, só areia para todos os lados, vento nas orelhas, poeira nos olhos. Uma coisa horrível!
- Na África é bonito. - disse Velho sinceramente.
- Eu tive que comer cachorro para não morrer desidratada!
- Mas não tem cachorro no deserto! - revelou José austero.
- Eu levei um comigo. Era o infeliz do Totó!
- Eu e o Velho não tivemos esse problema.
- Levaram comida, água...
- Não, fomos com que estávamos no corpo.
- E então?
- Comíamos areia, era a única coisa que tinha, e era uma delícia quentinha, principalmente naquela época do ano.
- Seus malucos!
- Obrigado. Velho dê uma demonstração para a velhinha.
No mesmo instante Velho cai no chão e se levanta com a boca cheia de terra.
- Nhac, nhac, cusp, falta adubo.
Todos ficam parados olhando aquilo, depois voltam a andar.
- Estamos perto. - diz Zeca. - É logo ali, perto daquele morro.
- Que bom que estamos perto, não aguento mais dar um passo. - reclamou José enquanto corria até o morro, lá ele parou e ficou olhando. - Estou vendo o avião, estou vendo o avião!
- Ele voa. - informou a dona Adevilda.
- Eu sei. - disse José animado. - Você sabia, Velho?
- É claro que sim. O que voa?
- Quando eu era pequeno... - contava Zeca. - Vinha aqui neste lugar brincar de escorregar do morro, voltava com as calças toda rasgadas, mas agora não tem mais ninguém, meus amigos morreram.
- Como?
- Comendo terra.
- O que?
- Terra do morro, a culpa foi minha, pois eu os obriguei.
O Velho se aproxima do morro e dá uma forte dentada no chão.
- Cusp! Morreram envenenados! Esta terra está contaminada com fungos! Você é um assassino!


Caso Sério


Uma vez fui comprar pão, uma mulher vinha da rua subindo e caiu no chão com as duas sacolas cheias de compras, bem na minha frente, caiu pacotes de biscoitos, molho de tomate, macarrão, um saco de doces caiu bem na minha frente. Pensei que ela tivesse morrido, chamaram alguém que trabalhava de enfermeiro e enquanto isso os aproveitadores roubaram as compras dela, sem dó, via aquelas pessoas feias dando risada e falando que na casa delas também estavam passando fome, roubavam a velhinha e saiam correndo. Ela ficou sem nada, o enfermeiro cuidou dela, eu fiquei com raiva olhando aquilo tudo e com pena da velhinha, a filha apareceu depois de um tempão, ela ficou que nem eu, com raiva dos aproveitadores, e depois chorou.
Não gosto de aproveitadores, nem de fofoqueiros, havia um senhor de idade casado com uma mulher mais nova que ele, pois ele tinha até cabelo branco. Ele era legal, quer dizer, era educado, bebia a pinga dele mas não enchia o saco de ninguém, todo mundo gostava dele, num dia a mulher dele chamou a polícia para dizer que ele tinha abusado da própria filha, eu não acreditei, porque conhecia ele, mas todo mundo ficou fofocando, falando que ele era um fingido, que era duas caras. Até minha mãe ficou fazendo fofoca, disseram que a polícia prendeu ele com outros bandidos e lá os presos abusaram dele como disseram que ele fez com a menininha. Escutar essas coisas me deixa triste, porque fico pensando na aflição deles, dá vontade de chorar, ainda mais quando se sabe que ele não fez nada. Depois de mais de um ano é que soltaram ele, o médico fez um exame na menina e não acharam nada, ele foi preso todo esse tempo sem ter feito nada. Todo mundo ficou mudo, daí não falaram mais nada. Se eu fosse grande eu xingava todo mundo, mas aqui ninguém fala nada na cara, eles sim são fingidos, ninguém pediu desculpas para ele mas a mulher dele se mudou para outra favela, o homem entrou para uma igreja mas não ficou muito tempo, começou a beber demais e agora só se vê ele bêbado.

Todos os dias acontecem coisas horríveis aqui, por isso prefiro ver televisão, se esta muito feio eu mudo de canal, na rua pode acontecer de tudo e eu fico sempre pensando nisso, não consigo nem dormir direito porque sempre acho que alguma coisa ruim vai acontecer comigo.

Igual quando um tarado estuprou a vizinha, ela era namorada de um traficante e a menina era bonita, então o tarado veio e estuprou ela e a matou batendo com a cabeça dela nos trilhos do trem. Fui no velório com a minha mãe, a menina parecia uma boneca, com a cara toda costurada e bem branca. Mataram o tarado na cadeia, o traficante era amigo de alguns policiais e trancaram ele com os outros presos que mataram ele depois de fazerem um monte de coisa que nem quero dizer.